Igreja brasileira: Resposta, Ignorância ou Silêncio?

Hoje, ao ler o prefácio do livro “Ortodoxia Integral“, de Pedro Dulci, acabei por me lembrar de uma música cristã que ouvi recentemente. No intervalo, em meio a uma ministração, a cantora dizia a frase: “Que a igreja brasileira seja resposta às nações!”, e isso acabou por me gerar uma pulga atrás da orelha. A questão que não sai da minha mente é: Como seremos uma resposta às nações, se não estamos sendo uma resposta sequer à nossa própria nação?

Veja, minha intenção não é minimizar o trabalho missionário realizado por brasileiros no exterior, muito menos provocar uma discriminação ao povo evangélico do qual também faço parte. Mas a história do evangelicalismo brasileiro não nos mostra a Igreja se levantando como uma resposta relevante em nossa sociedade. Ao contrário, a igreja cresceu consideravelmente em número no século XX, mas desenvolveu uma cultura baseada em algo que os teólogos chamam de “dicotomia“, uma separação do sagrado e secular. Enraizada nessa dicotomia, coloca-se a figura do evangélico como um ser triunfante sobre os demais, separado e diferenciado, próspero ou bem-sucedido financeiramente, e dotado de poderes sobrenaturais que o fazem quase um Super Sayajin gospel. Surgem conferências mercadológicas com cristãos famosos e mensageiros de motivação pessoal que trazem temáticas como “reinar em vida” e sobre o quanto você pode ser bem-sucedido. Na sociedade brasileira atual existe um preconceito muito forte contra grupos evangélicos e a cultura cristã, fortalecido por movimentos sociais interessados num tipo de libertação ideológica e moral que ignora a importância da igreja na sociedade. Surgem também cristãos cheios de “boa vontade”, promovendo um evangelho sem evangelho, colocando Cristo apenas como uma estima para se construir uma sociedade mais saudável, pacífica e harmônica, tudo em nome do bem. Esses grupos apresentam um certo silêncio sobre assuntos polêmicos que envolvem coisas como ideologia de gênero, sexualidade e religião. Em resposta a isso, surgem grupos extremos que defendem de forma ignorante valores tradicionalmente cristãos, e o fazem de modo a gerar um mau-estar social a quem se denomina crente ou evangélico.

Essa divisão ideológica é o que faz com que o diálogo entre os próprios cristãos para a construção de uma Igreja saudável não aconteça. Minha hipótese é que tanto o silêncio quanto a ignorância, assim como esse sentimento triunfalista, surgem da má compreensão do papel do cristão dentro do Reino de Deus. Indo mais fundo ainda, falta de compreensão da fé cristã. Em Efésios 2:10, vemos que a validade daquilo que fazemos como cristãos está em quem Cristo é e na nova criatura que Ele nos torna, anulando então a ideia de justiça social autônoma. Na verdade, na vida cristã, a única forma de ser bem-sucedido é seguindo as marcas da Cruz e, através dela, entendendo o nosso papel como transformadores desse mundo. Qualquer forma que dissocia a Cruz da justiça, é uma perdição com consequências drásticas tanto pro agora quanto pra eternidade. De igual forma, qualquer evangélico que ignora a transformação do mundo ao seu redor (seja em nome de uma busca pela santidade ou qualquer outra razão), está falhando enquanto cristão. Francis Schaeffer disse claramente: “Ortodoxia bíblica sem compaixão é com certeza a coisa mais feia do mundo“. Quando Paulo adverte a Igreja em Filipenses 2:5 para que “tenham em vocês o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus“, ele fala sobre manifestar os sinais da nova vida que agora temos em Cristo. Ralph Martin cita no seu livro “Filipenses: Introdução e Comentário” a engenhosa interpretação de E. Kasemann, que aponta que Paulo não queria colocar Jesus como um exemplo ético, e sim, apontar para “a história salvífica na qual todos foram inseridos em sua conversão e batismo, quando os eventos salvantes da história de Cristo adquiriram significado pessoal, e os crentes passaram do domínio da velha natureza para a “nova vida”, inaugurada pela vitória de Cristo sobre os poderes das trevas” (Rm 6:1-14). Então, viver verdadeiramente essa nova vida e continuar operando a salvação (Fp 2:12) é o real objetivo da cristandade para a qual nossa Igreja precisa despertar, se desapegando de ideologias, opiniões, visões pessoais e se apegando em quem Jesus Cristo é e nas características de sua identidade.

Cristo trouxe um Reino de relacionamentos, e através deles nós vamos nos levantar como uma resposta necessária para que a realidade da igreja brasileira mude. Pra isso, precisamos nos relacionar com Cristo e sua Palavra, com a Igreja e com a sociedade. Não existe uma fórmula alternativa para que sejamos libertados e possamos anunciar a liberdade: “Conhecereis a Verdade, e a Verdade vos libertará” (João 8:32).

Publicado por Gesse Silva

Gesse Silva é diretor da Cristandade, pastor líder da Apostólica Church, mentor de lideranças e missionário em tempo integral. Ele acredita na mudança do mundo através do despertamento das pessoas que vão transformar realidades, e isso se reflete em todas suas esferas de atuação.

Um comentário em “Igreja brasileira: Resposta, Ignorância ou Silêncio?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: